Terapia Ocupacional - Saiba Mais!

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Terapia Ocupacional - Saiba Mais!

Mensagempor Bruno Glória em Quinta, 05 Abr 2012 16:21

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História da Terapia Ocupacional

A Terapia Ocupacional é uma profissão em constante evolução (ATCTO, 2012). Apesar de ser considerada por muitas pessoas como uma profissão nova, recente, a verdade é que a “ocupação” tem sido central à nossa existência desde sempre (Sensory Processing Disorder, 2011). Existem várias referências ao longo da história a apontar para a importância da ocupação como forma terapêutica. Em 2600 a.C. já os chineses recorriam ao treino físico como actividade terapêutica pois consideravam que doença resultava de inactividade física. Os egípcios, por volta de 2000 a.C. defendiam a importância do envolvimento em ocupações agradáveis, recorrendo a jogos para tratar pessoas “melancólicas”. Mais referências à importância da ocupação surgem na Grécia clássica, cerca de 600 a.C., onde se utilizavam cantigas, músicas e dramatizações para acalmar delírios. O recurso a cantigas e música para tratar diferentes tipos de agitação mental era também defendido por Séneca, um escritor e orador Romano em 30 a.C. Já em 220 d.C. Hipócrates recomendava actividades como equitação, o trabalho e exercícios vigorosos, enfatizando a ligação entre o físico e a mente (APTO, 2010; Turner, Foster & Johnson, 2005; Serrett, 1985).

É nos anos de 1700 que a Terapia Ocupacional começa a emergir de forma mais formal, numa época de ideias revolucionárias relativamente aos doentes mentais. Naquela época os doentes mentais eram tratados como prisioneiros e considerados perigosos para a sociedade. Em 1786 Phillipe Pinel, um médico francês e filósofo, daria início a uma reforma, onde eram desafiadas as crenças da sociedade sobre os doentes mentais, com um novo entendimento e filosofia de tratamento. Em 1793, Phillipe Pinel começou o que era então chamado “Tratamento Moral e Ocupação”, uma abordagem de prestação de cuidados a pessoas mentalmente doentes inspirada numa filosofia humanitária (APTO, 2010; Turner et al., 2005; Serrett, 1985). A Terapia Ocupacional tem então as suas raízes no tratamento moral, cuja premissa central referia que a participação em diversas tarefas e eventos da vida diária poderiam restaurar as pessoas a níveis de funcionamento mais normais. Era papel da sociedade ajudar as pessoas com problemas de saúde mental a retornarem a um padrão de vida normal. Surge também nesta fase ligação entre saúde e ocupação: o equilíbrio entre criatividade, lazer, interesses, celebração e trabalho é essencial para a saúde. O tratamento de doentes mentais passou a basear-se na selecção e envolvimento em diferentes actividades, escolhidas propositadamente. Literatura, música, e exercício físicos eram usados como forma de “curar” o stress emocional, melhorando a capacidade da pessoa para realizar a suas actividades de vida diária (Sensory Processing Disorder, 2011; APTO, 2010; Creek & Lougher, 2008). Em 1906, Susan Tracey, enfermeira-chefe no Adams Nervine Hospital de Boston, estabeleceu um curso que é actualmente considerado como percursor da profissão. As suas aulas, sobre Ocupação para Doentes, foram posteriormente publicadas em livro. Logo a seguir, em 1908 inicia-se na Chicago School of Civics and Philanthropy, um curso de treino ocupacional com o objectivo de preparar enfermeiras para trabalharem em instituições de saúde mental. O conceito de Ocupação, mais tarde definido pelo arquitecto George Barton, surge dos princípios e fundamentos que começaram a ser estabelecidos nesta fase. Em 1914, George Barton contactou o Dr. William R. Dunton, Jr., porque estava interessado em aprender sobre as respostas do corpo humano à terapia baseada em ocupações (Sensory Processing Disorder, 2011; Creek & Lougher, 2008).

No início do século XX, esta ideia de recorrer à ocupação para tratar pessoas com doença mental começa gradualmente a ganhar credibilidade e vai sendo implementada e difundida. Assim, a Terapia Ocupacional acaba por ter a sua origem mais ligada à área de saúde mental. A sua importância e utilidade na área da reabilitação física surge mais tarde em Inglaterra, após a Primeira Grande Guerra.

O desenvolvimento da Terapia Ocupacional no campo da disfunção física surge então no pós-guerra, da necessidade de reabilitar os jovens militares incapacitados. Foi nessa época que terapeutas ocupacionais foram chamados para desenvolver programas e tratar soldados feridos, dos quais havia muitos. Em Inglaterra, foram criados nos hospitais militares os primeiros departamentos de Terapia Ocupacional na área de reabilitação física, onde era valorizado o exercício articular e muscular e se recorria a diferentes ferramentas e máquinas adaptadas. Predominavam actividades como pintura e carpintaria com adaptações como por exemplo máquinas de serrar com pedais (Sensory Processing Disorder, 2011; APTO, 2010; Turner et al., 2005).

Em 1930 surge em Bristol a primeira escola de treino de Terapia Ocupacional, através da Dra. Elisabeth Casson que havia tido contacto com escolas americanas. Ainda em Inglaterra, em 1936, forma-se a Associação de Terapeutas Ocupacionais. Ainda assim, só nos países mais afectados pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945), é que a Terapia Ocupacional se implementa e ganha força. São criados novos departamentos, com grande influência militar, onde o grande objectivo era a reabilitação e integração dos soldados feridos, através da reaprendizagem das actividades de vida diária e artesanais. A ocupação era vista como uma forma de retornar à actividade normal e ao mesmo tempo ajudava a pessoa a melhorar as suas capacidades. A partir desta visão da ocupação surge a ligação com o modelo médico, ainda assim com a preocupação em adequar as actividades escolhidas às necessidades, interesses e motivações da pessoa (APTO, 2010; Turner et al., 2005). O campo da Terapia Ocupacional continuou a crescer. Durante a década de 1960, assim como a medicina se foi especializando, também os terapeutas ocupacionais foram chamados e habilitados para tratar nas áreas de pediatria e alterações no desenvolvimento. Com a desinstitucionalização surgiu uma necessidade ainda maior para ajudar pessoas com doença mental, disfunções físicas, e/ou problemas de desenvolvimento, a tornarem-se independentes e produtivos na sociedade. Eram os terapeutas ocupacionais quem poderiam facilmente preencher este papel, e a procura de terapeutas competentes e com formação estava lançada (Sensory Processing Disorder, 2011; APTO, 2010; Turner et al., 2005).

Em Portugal, o curso de Terapia Ocupacional surgiu em 1957, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, tendo as primeiras terapeutas ocupacionais recebido formação nos EUA e em Inglaterra (APTO, 2010). Durante as décadas de 1980 e 1990, a Terapia Ocupacional começou a focar-se mais na qualidade de vida da pessoa, ficando assim mais envolvida na manutenção da educação, prevenção, projecções e saúde. Os objectivos da Terapia Ocupacional poderiam agora concentrar-se também na prevenção, qualidade de vida e em manter a independência (Sensory Processing Disorder, 2011).


O que é Terapia Ocupacional? O que fazemos?

Hoje, a ocupação é o foco principal da profissão. É uma profissão em constante evolução. Podem-se encontrar terapeutas ocupacionais a trabalhar numa variedade de configurações com vários grupos de diferentes faixas etárias e deficiências. O estudo da ocupação humana e dos seus componentes tem proporcionado à profissão um conhecimento sobre os seus conceitos intrínsecos e constructos que servem de guia à sua prática (ATCTO, 2012). Terapia Ocupacional é o tratamento de condições físicas e psiquiátricas, através de abordagens específicas, com o objectivo de proporcionar ao indivíduo o seu máximo nível de funcionalidade e de independência no desempenho das actividades que lhe são significativas. O terapeuta ocupacional avalia as funções físicas, psicológicas e sociais do indivíduo, identifica as áreas de disfunção e envolve o indivíduo num programa estruturado de actividades significativas de forma a ultrapassar a deficiência. As actividades são seleccionadas de acordo com as necessidades pessoais, sociais, culturais e económicas e reflectem os factores ambientais que orientam a vida do indivíduo (Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto, 2008). Segundo a World Federation of Occupacional Therapists (WFOT, 2012), a Terapia Ocupacional é uma profissão de saúde centrada no cliente que se preocupa com a promoção de saúde e de bem-estar através da ocupação. O principal objectivo é possibilitar as pessoas a participar de forma bem sucedida nas suas várias actividades de vida diária. Os terapeutas ocupacionais atingem este objectivo capacitando as pessoas a fazer coisas que lhes potenciem a possibilidade de viver uma vida com significado ou através de modificações no ambiente que suportem e melhorem a participação.

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A Terapia Ocupacional valoriza cada pessoa e acredita na sua capacidade de agir em seu próprio nome para alcançar um melhor estado de saúde através da ocupação. É uma profissão em grande crescimento, com muitos desafios e oportunidades pela frente.


Onde trabalha um terapeuta ocupacional?

O terapeuta ocupacional desenvolve actividades em instituições de prestação de cuidados de saúde, tanto públicas como privadas, tais como hospitais, centros de saúde e centros especializados, nomeadamente de reabilitação; em instituições de educação, tais como agrupamentos escolares, jardins-de-infância, centros de actividades ocupacionais e residências e em instituições particulares de solidariedade social; em lares de 3ª idade, na comunidade e no local de emprego com vista à preparação para a vida activa; bem como em centros de investigação de ensino (WFOT, 2012; APTO, 2010; Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto, 2008). Com possibilidades de especialização em diferentes áreas como pediatria, saúde mental, reabilitação física ou gerontologia, o terapeuta ocupacional pode intervir em todas as faixas etárias e em diferentes patologias e problemas de saúde.

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Associações de Terapia Ocupacional

A Terapia Ocupacional é uma profissão com representação e reconhecimento em muitos países. Temos como exemplo e importante referência a Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais, a Associação Americana de Terapeutas Ocupacionais, a Associação Canadiana de Terapeutas Ocupacionais, a Associação Britânica de Terapeutas Ocupacionais, ou a Associação Australiana de Terapeutas Ocupacionais. Ainda de referir a Rede Europeia de Terapeutas Ocupacionais no Ensino Superior - European Network of Occupational Therapy in Higher Education que resultou duma iniciativa do Conselho de Terapeutas Ocupacionais para os Países Europeus (COTEC) com o apoio de ERASMUS (ENOTHE, 2012).
Em Portugal existe a Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais (APTO).


Onde posso estudar Terapia Ocupacional?

Actualmente existem 6 escolas superiores com licenciatura em Terapia Ocupacional. No presente ano lectivo (2011/2012), encontra-se a decorrer o curso nas seguintes escolas: Escola Superior de Saúde do Alcoitão; Escola Superior de Saúde - Instituto Politécnico de Beja; Escola Superior de Saúde - Instituto Politécnico de Leiria; Escola Superior de Tecnologias de Saúde do Porto - Instituto Politécnico do Porto; Escola Superior de Saúde do Vale do Sousa - CESPU e Instituto Superior de Saúde do Alto Ave - ISAVE (Acesso ao Ensino Superior, 2011; APTO, 2010) sendo que todos os anos se tem realizado o ENETO - Encontro Nacional de Estudantes de Terapia Ocupacional.

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por:
João Aires
Licenciado em Terapia Ocupacional pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto (ESTSP) – IPP
Pós-graduação de Terapia Ocupacional em Crianças e Jovens
Mestrando em Terapia Ocupacional, especialidade Crianças e Jovens



Referências Bibliográficas

Acesso ao Ensino Superior. Índice por Curso e Estabelecimento, (2011). [recurso online]. Acedido em 4 de Fevereiro, 2012, em:
http://www.acessoensinosuperior.pt/indc ... =T&frame=1

Área Técnico-Científica da Terapia Ocupacional, [ATCTO]. Aprender Terapia Ocupacional [post online]. Acedido em 11 de Fevereiro, 2012, em: http://toestsp.wordpress.com/

Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais, [APTO], (2010). O que é a Terapia Ocupacional? [recurso online]. Acedido em 4 de Fevereiro, 2012, em: http://www.ap-to.com/to.html

Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais, [APTO], (2010). Como Obter a Licenciatura? [recurso online]. Acedido em 5 de Fevereiro, 2012, em: http://www.ap-to.com/como.html

Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais, [APTO], (2010). Onde Encontrar um Terapeuta Ocupacional? [recurso online]. Acedido em 11 de Fevereiro, 2012, em: http://www.ap-to.com/onde.html

Creek, J. e Lougher, L. (2008). Occupational therapy and mental health. (4ª ed.). London: Churchill Livingstone

Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto (2008). Terapia Ocupacional [recurso online]. Acedido em 11 de Fevereiro, 2012, em: http://www.estsp.ipp.pt/index.php/to

European Network of Occupational Therapy in Higher Education, [ENOTHE], (2012). Organisation: Introduction. [recurso online]. Acedido em 18 de Fevereiro, 2012, em: http://www.enothe.eu/index.php?page=about/en/default

Sensory Processing Disorder (2011). The History of Occupational Therapy. Where Did We Come From? How Did We Get Here? [recurso online]. Acedido em 4 de Fevereiro, 2012, em: http://www.sensory-processing-disorder. ... erapy.html

Serrett, K.D. (1985). Philosophical and Historical Roots of Occupational Therapy. (1ª ed.). London: The Haworth Press, Inc.

Turner, A., Foster, M. e Johnson, S.E. (2005). Occupational therapy and physical dysfunction: principles, skills, and practice. (5ª ed.). London: Churchill Livingstone

World Federation of Occupational Therapists, [WFOT]. What is Occupational Therapy? [recurso online]. Acedido em 11 de Fevereiro, 2012, em:
http://www.wfot.org/AboutUs/AboutOccupa ... erapy.aspx

World Federation of Occupational Therapists, [WFOT]. Where do OT’s work? [recurso online]. Acedido em 11 de Fevereiro, 2012, em:
http://www.wfot.org/AboutUs/AboutOccupa ... swork.aspx
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