Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica - Saiba Mais!

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Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica - Saiba Mais!

Mensagempor Bruno Glória em Domingo, 14 Abr 2013 21:40

Anatomia Patológica

A tradução literal de patologia significa o estudo (logia) do sofrimento, doença (pathos), sendo a Anatomia Patológica a especialidade médica que estuda as alterações morfológicas e funcionais dos órgãos, tecidos e células que levam à doença (1). Nesta área são realizados exames macroscópicos e microscópicos importantes para o diagnóstico de lesões, contribuindo para decisões no tratamento e prognóstico das doenças. A Anatomia Patológica tem, também, um papel fundamental na prevenção de doenças. Adicionalmente, esta área tem tido uma importância crescente na medicina veterinária.
Normalmente, os serviços hospitalares de Anatomia Patológica ou análogos, são constituídos pelo menos por três grandes áreas: macroscopia e histopatologia, citopatologia e autópsias clínicas. No entanto, devido à evolução das técnicas laboratoriais e dos avanços na patologia molecular, alguns laboratórios tem também áreas funcionais adicionais, como a biologia molecular e a microcopia electrónica.
O diagnóstico anatomopatológico é fundamental para as decisões clínicas de várias especialidades médicas, e envolve vários tipos de exames (Fig. 1): exames macroscópicos e histopatológicos de espécimes biológicos como biópsias e peças cirúrgicas; exames citopatológicos em aspirados esfoliativos, biópsias aspirativas e citologias em colheitas cérvico-vaginais, sendo este último exame muito importante no diagnóstico e programas de rastreio de cancro do colo do útero; exames extemporâneos importantes em decisões cirúrgicas; exames imunohistoquímicos e exames moleculares; e autópsias clínicas.


História da Anatomia Patológica

A documentação de doenças iniciou-se no século XVII a.C. com a medicina Egípcia, reportando lesões nos ossos, tracomas e parasitas (2). Hipócrates (460-375 a.C.) e a sua escola tiveram um enorme impacto na medicina Grega e Romana. Hipócrates formou a teoria dos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra), que mediante as quantidades relativas presentes no corpo, levariam a estados de equilíbrio ou de doença e dor (2). Esta escola contribui também para descrições detalhadas de tumores, inflamação de feridas, hemorróidas, tuberculose e malária.
Cláudio Galeno (129-217) representou a maior figura médica da época, seguindo os conceitos da escola Grega, mas tendo também algumas influências da escola de Alexandria. Através da dissecação de animais vivos, Galeno protagonizou importantes descobertas relativamente a estruturas dos animais mamíferos, como os nervos e o sistema urinário, demonstrando, ainda, que as artérias conduzem sangue (3). Fez, também, importantes observações relativamente à forma crescimento dos tumores – crescimento em forma de caranguejo.
Ao longo do tempo, os dogmas da medicina Grega foram mantidos vivos pelos monges, tornando-se eles próprios médicos, e fazendo cópias ou anotações de manuscritos médicos antigos (2).
O despertar do conhecimento da Anatomia Patológica coincidiu com a criação das Universidades Italianas, onde em 1270, a Faculdade de Medicina de Bolonha usava já a dissecação para o estudo da anatomia humana como parte regular do ensino médico.
Antonio Benivieni (1443-1502; Fig. 2) colectou um impressionante número de casos “clínicos”, e realizou autópsias de alguns dos doentes (4). Era a primeira vez que se implementava a autópsia como forma de explicar as doenças. É neste momento histórico que se acredita que a Anatomia Patológica adquiriu independência, sendo Antonio Benivieni considerado o pai da Anatomia Patológica.
Jean Fernel (1497-1558) subdividiu as doenças como gerais e especiais, distinguindo os sinais e sintomas das mesmas (2). Diagnosticou pela primeira vez um caso de apendicite aguda e introduziu o conceito de “fisiologia”. William Harvey (1578-657) estabeleceu a circulação do sangue e a função do coração, contribuindo para o fim da teoria humoral (2). As autópsias realizadas por Giovanni Battista Morgagni (1682-1771) permitiram-lhe estabelecer uma correlação entre os seus achados patológicos e os sintomas dos seus doentes (2, 4), levando a crer que as doenças tinham um substrato anatómico, iniciando-se, assim, a era moderna da Anatomia Patológica. John Hunter (1728-1793) estabeleceu a inflamação como um mecanismo de defesa e, secundariamente, como um processo de reparação.
Durante a Revolução Francesa, Marie Francois Xavier Bichat (1771-1802) estava ao serviço do exército, tendo tido a autorização de investigar cadáveres frescos. Com estes meios, e ainda sem microscópio, Bichat foi o primeiro a introduzir o conceito de histologia, definindo os tecidos como entidades distintas, e que as doenças afectavam os tecidos em vez de todo órgão (2, 5).
Na primeira metade do século XIX assistiu-se a um crescente aumento do interesse pelas ciências básicas, principalmente a fisiologia e a química, levando a uma abordagem mais científica no estudo das doenças. Embora Marcello Malpighi (1628-1694) fosse o protagonista da primeira utilização do microscópio, usando-o para estudos de histologia e anatomia microscópica, a importância da microscopia na Anatomia Patológica tornou-se evidente nos trabalhos de Carl Rokitansky (1804-1878) (2).
Curiosamente, Rudolf Virchow (1821-1902; Fig. 3), um ex-aluno de Rokitansky, rivalizou com o seu mentor, e estabeleceu o uso rotineiro do microscópio nas autópsias. Sendo considerado o pai da Patologia Moderna, Virchow sugeriu que as alterações celulares estavam na origem da doença (2,5). Adicionalmente elaborou uma tríade que é constituída por três categorias de factores que contribuem para a trombose – tríade de Virchow.
O microscópio transformou a definição de doença, passando a focar-se sobre as células, criando importantes e numerosas técnicas necessárias para a prática da histopatologia moderna. Na sequência disso, nas últimas décadas do século XIX, grandes avanços foram feitos no tratamento dos tecidos para análise, passando a usar-se a fixação dos tecidos, técnicas de embebição de tecidos, micrótomos e colorações. Edwin Krebs (1834-1913) iniciou o uso de embebição dos tecidos em parafina em 1869, introduzindo o conceito do processamento de tecidos, pois era necessário o endurecimento e desidratação dos mesmos, para que ocorresse a embebição com parafina (2). Apesar de terem sido testadas várias soluções fixadoras, o formaldeído é o mais usado na preservação dos tecidos, tendo sido introduzido por Isaac Blum (1833-1903) e o seu filho Ferdinand Blum (1865-1959) (6).
Em 1965, Franz Böhmer iniciou o uso da hematoxilina como corante nuclear (2). A combinação da hematoxilina e eosina (H&E) tornou-se o método de coloração mais amplamente utilizado no diagnóstico médico. Adicionalmente, com a descoberta dos corantes de anilina por Paul Ehrlich (1854-1915), o número de colorações de tecido aumentou rapidamente permitindo grandes avanços no estudo de diversas doenças.
O aperfeiçoamento da fixação, embebição, corte e coloração dos tecidos, assim como, a melhoria dos métodos imunohistoquímicos, métodos moleculares, microscopia e processamento de imagens permitiram a criação de métodos mais precisos no diagnóstico de doenças.
No século XX, a descoberta dos anticorpos monoclonais por Georges Köhler (1946-1995) e César Milstein (1927-2002) (7), a marcação de anticorpos com fluoresceína por Albert Coons (1912-1978) (8), e a reacção em cadeia da polimerase em 1983 por Kary Mullis (1944-; Fig. 4) (9), tiveram um enorme impacto (2). As doenças, maioritariamente caracterizadas com base em aspectos morfológicos, tiveram uma reclassificação generalizada. As descobertas supracitadas têm hoje uma aplicação rotineira na Anatomia Patológica.


Habilitações da licenciatura de Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica

A licenciatura de Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica (APCT) tem por objectivo formar profissionais habilitados a trabalhar na área das ciências da saúde.
Os licenciados em APCT têm formação especializada na área da histopatologia, citopatologia, imunohistoquímica, histoenzimologia, microscopia eletrónica, tanatologia e biologia e patologia molecular.
Estes profissionais podem integrar diversas carreiras da área das ciências da saúde, como a carreira de técnico de diagnóstico e terapêutica, carreira de técnico superior, carreira de investigação, carreira de professor, e carreiras relacionadas com o diagnóstico molecular e citogenético, marketing farmacêutico, entre outros.


Carreira de técnico de diagnóstico e terapêutica

A carreira de técnico de diagnóstico e terapêutica encontra-se regulada actualmente pelo Decreto-Lei n.º 564/99.de 21 de Dezembro (10). A alínea b) do artigo 5º deste Decreto-Lei integra o técnico de APCT nesta carreira. Na mesma alínea é definido a função destes profissionais: “tratamento de tecidos biológicos colhidos no organismo vivo ou morto com observação macroscópica e microscópica, óptica e electrónica, com vista ao diagnóstico anatomopatológico; realização de montagem de peças anatómicas para fins de ensino e formação; execução e controlo das diversas fases da técnica citológica”. As condições de ingresso na carreira são definidas pelo artigo 14º do mesmo Decreto-Lei (10), em que é exigida a habilitação do curso superior ministrado nas escolas superiores de tecnologia da saúde, ou seu equivalente legal.
Três sindicatos representam os técnicos de APCT: o Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Saúde das áreas de Diagnóstico e Terapêutica (SCTS), o Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica (SINDITE) e o Sindicato Nacional dos Profissionais de Farmácia e Paramédicos (SIFAP).


Instituições de ensino

Actualmente, a Licenciatura em APCT é leccionada em quatro unidades: Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto (ESTSP), Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (ESTeSL), Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU) e Escola Superior de Saúde Egas Moniz (ESEM). Em todas as intuições supracitadas, a licenciatura corresponde ao 1º ciclo de estudos do ensino superior definido no Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março (11).
Ambas as licenciaturas têm uma duração de 4 anos, apresentando-se com diferentes planos de estudo entre instituições. Segundo o sistema europeu de transferência de créditos, a licenciatura totaliza 240 European Credit Transfer System (ECTS).


Empregabilidade

Devido à diversidade das carreiras profissionais nas ciências da saúde que os licenciados em APCT podem integrar, às diferentes realidades das instituições onde existe a licenciatura em APCT e à impossibilidade de uma recolha estatística fidedigna da realidade, torna-se difícil a majoração rigorosa dos índices de empregabilidade destes licenciados.
O último estudo do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, datado em Dezembro de 2010, revela, num total de 897 diplomados em APCT entre 2000 e 2009, que 9% estavam inscritos nos centros de emprego (12). No entanto, este estudo depara-se com uma limitação importante, porque nem todos os diplomados com um curso superior em situação de desemprego se inscrevem nos centros de emprego.


Associativismo profissional

A Associação Portuguesa de Técnicos de Anatomia Patológica (APTAP), fundada em 29 de Julho de 1985, é a única associação com dedicação exclusiva aos licenciados em APCT. Tendo sido criada com o intuito do aperfeiçoamento e actualização dos seus membros, a APTAP tem hoje um papel indiscutível na evolução científica e cultural dos seus membros.
Com a crescente descaracterização da visão do licenciado em APCT como técnico de Anatomia Patológica, a APTAP terá que alterar os seus estatutos e alargar as suas orientações estratégicas, com o intuito de dar respostas aos seus associados licenciados em APCT que exercem outras carreiras profissionais que não a careira de técnico de diagnóstico e terapêutica de Anatomia Patológica.


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por Ricardo Celestino
Licenciado em Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica
Doutorado em Patologia e Genética Molecular
Investigador no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP)
Professor Assistente Convidado na Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto, Instituto Politécnico do Porto



Referências bibliográficas
1. KUMAR, V.; ABBAS, A. K.; FAUSTO, N. – Robbins & Cotran pathologic basis of disease. 7th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2005. ISBN: 0-7216-0187-1.
2. VAN DEN TWEEL, J. G.; TAYLOR, C. R. – Introduction to the History of Pathology series. Virchows Arch. ISSN 1432-2307. 457. (2010) 3-10.
3. SINGER, C. – Galen on anatomical procedures. De anatomicis administrationibus. Translation of the surviving books. Oxford: The Wellcome Historical Medical Museum by Oxford University Press, 1956. ISBN 10: 0199240167.
4. HAJDU, S. I. – A note from history: the first printed case reports of cancer. Cancer. ISSN 0008-543X. 116:10 (2010) 2493-2498.
5. HAJDU, S. I. – A note from history: Rudolph Virchow, pathologist, armed revolutionist, politician, and anthropologist. Ann Clin Lab Sci. ISSN 0091-7370. 35:2 (2005) 203-205.
6. FOX, C. H., [et al.] – Formaldehyde fixation. J Histochem Cytochem. ISSN 0022-1554. 33:8 (1985) 845-53.
7. KOHLER, G.; MILSTEIN, C. – Continuous cultures of fused cells secreting antibody of predefined specificity. Nature. ISSN 0028-0836. 256:5517 (1975) 495-497.
8. COONS, A. H. – Fluorescent antibodies as histochemical tools. Fed Proc. ISSN 0014-9446. 10:2 (1951) 558-559.
9. MULLIS, K. B. – The Unusual Origins of the Polymerase Chain Reaction. Scientific American. 262 (1990) 56-65.
10. DECRETO-LEI nº 564/99. D.R. I Série-A, 295 (99-12-21) 9083-9100.
11. DECRETO-LEI n.º 74/06, D.R. I Série-A, 60 (06-03-24) 2042-2057.
12. A procura de emprego dos diplomados com habilitação superior [8º Relatório]. Lisboa: Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais/Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 2012. ISBN 978-972-8844-63-9.
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